Isaac
O
dia de Isaac começara com um pesadelo, sobre o acidente. Desde que descobriu o
que realmente tinha acontecido, todos os dias o rapaz tinha o mesmo sonho. Isso
estava o deixando louco, mas o que ele podia fazer?
Ele
se levantou ainda tremendo e suando frio, foi em direção ao banheiro para lavar
o rosto. Isaac lavou sua face inúmeras vezes com a água fria que saia da
torneira, mas a sensação angustiante não parava.
Assim
como os pesadelos, a cicatriz esbranquiçada de quase cinco centímetros
continuava ali, no lado esquerdo de seu pescoço, queimando como inferno, o
fazendo ter arrepios pensando no acidente.
Isaac
se despiu e entrou no chuveiro, tomando um banho quente para tentar se acalmar.
Estava sendo difícil guardar toda aquela sensação angustiante dentro de si
apenas para ele. Desde que se lembrou do acidente, as cenas e flashback’s
apareciam constantemente em sua mente, o deixando desnorteado quase sempre. O
de olhos azuis queria conversar com alguém sobre aquilo, queria desabafar, mas
tinha medo de falar. Como no caso do irmão gêmeo, Isaac estava receoso em
contar como se sentia para Max, pois sabia que o irmão sofrera e ainda sofria
com o seu acidente, não queria ficar remexendo na ferida. Ele também pensava em
Mari, sabia que podia confiar nela para falar, mas não sabia o que aconteceria.
Será que ela ficaria triste? Chateada? Era tantos pensamentos ao mesmo tempo.
Isaac precisava pedir ajuda o mais rápido possível, só não sabia para quem.
Além do mais, precisava pedir desculpas à Mari. Não era da conta dele o fato de
ela e Kai estarem pensando em cantar uma música juntos. Defeito de escorpiano,
Isaac era ciumento e obsessivo que nem o irmão. E também, a garota nem era
dele. Ele não deveria tratá-la como sua propriedade. Mesmo que aquilo fosse
triste para Isaac, era a realidade. Nem sabia identificar o que sentia de
verdade, era muito lerdo quando se tratava de relacionamentos.
Isaac
fechou a torneira e foi até o criado-mudo, apertou o botão do meio do celular,
ligando o visor e vendo que marcava 4:45 da manhã. Ele suspirou em
desaprovação, por que acordara tão cedo? Tanto tempo para dormir desperdiçado.
O
rapaz se deitou e tentou dormir novamente, o que deu certo para a surpresa
dele, que pegou no sono facilmente.
Ele
acordou com o despertador tocando, com aquele som irritante e contínuo que o
atormentava todas as manhãs letivas. Isaac se levantou sonolento e foi até
Thomas, que não havia acordado.
— Tommy, acorda. — ele disse
sacudindo o loiro de leve.
— Nãooo, só mais alguns minutos. — Thomas disse sonolento enquanto
tentava empurrar o colega de quarto.
— Vamos, você pode acabar se
atrasando.
— Não quero.
Isaac
respirou fundo, mantendo a paciência e acabou tendo uma ideia. Ele deu um
sorriso travesso por conta disso. O rapaz pegou sua garrafinha no criado-mudo e
se aproximou do amigo novamente.
— Não vai levantar?
— Não. — Thomas respondeu ainda com
os olhos fechados.
— Tudo bem, então.
Isaac
virou a garrafinha, despejando toda a água que havia dentro do recipiente,
dando um susto em Thomas e o acordando na mesma hora.
— Como é que chamam isso? — ele
disse com um tom divertido — Acho que é revanche.
— Seu... viado.
Ele
começou a rir histericamente enquanto Thomas saía da cama e ia em direção ao
banheiro. Como de costume, Isaac resolver atormentar um pouco mais, saindo do
quarto e indo para o do irmão gêmeo.
Quando
chegou, Max estava na ponta da cama, com um violão em seu colo. O gêmeo nem
havia percebido sua presença ali. Já Mark, o colega de quarto e um dos melhores
amigos dele, estava no banheiro se arrumando e cantarolando Swish Swish em um
tom gravíssimo e afeminado demais para alguém que se dizia hétero.
— Ei, Max. — chamou Isaac ao entrar
e se sentar ao lado do irmão.
— E aí? — o rapaz cumprimentou sem
mesmo o olhar.
— O que está fazendo? Faz tanto
tempo que não o vejo tocar violão.
Max
sorriu minimamente.
— Estou tentando afinar ele, quero
tentar tocar algo diferente de rap.
— Ah, sim. Como o que?
— Não faço ideia, mas... algo
calmo. — Max disse com uma expressão suave.
— Nossa, que brisa. — Mark comentou
com a voz ecoada por ainda estar no banheiro.
Isaac
encarou o gêmeo por alguns segundos. Ele estava definitivamente diferente de
uns dias para cá. Várias vezes o rapaz o pegava com aquela mesma expressão,
como se algo estivesse o relaxando.
— Você está diferente. — Isaac
disse.
Max
o olhou e franziu as sobrancelhas, confuso.
— Não estou não.
— Está sim.
— Você tá ficando louco, eu não
mudei nada.
— Max, você é meu irmão gêmeo, eu
sei quando tem algo diferente. Não tenta esconder as coisas de mim. Tu tá mó
tranquilão. Me fala aí, é maconha ou tu comprou o CD da Lana Del Rey?
— OI? — Max ficou sem saber o que
falar, enquanto Mark gargalhava no banheiro.
— Eu achei um orégano estranho
esses dias na bolsa dele. — disse o moreno.
— Cala a boca, Mark! Seu demônio
desmamado! Aquilo era um sachê de chá de camomila! — retrucou Max.
— Aaaah sim, namastê pra você
também, ô drogado. Vou chamar o leãozinho do proerd e ele vai te deitar na
porrada.
Isaac
gargalhou por conta da conversa super sentimental do irmão com o melhor amigo,
Max os ignorou e voltou sua atenção para o violão, o afinando.
— Então... é a Rhay? — perguntou.
O
gêmeo passou os dedos rapidamente nas cordas, fazendo um som estranho.
— Bingo! — gritou Mark dentro do
banheiro, seguindo de uma gargalhada alta.
— Sério mesmo?! — Isaac perguntou
para o irmão, sorridente.
— Não, o Mark só tá tirando uma com
a minha cara. — ele disse rapidamente e impaciente — Se eu falar que ele não
tem atitude com a Juh, ele acha ruim.
— Ow. — ouvimos a voz ecoada de
Mark ainda no banheiro, mas o garoto fora para porta, jogando uma meia usada em
Max — É mentira isso aí que ele falou, tem nada disso não.
Os
dois riram dele. Max pegou uma folha com as cifras e começou a dedilhar.
— Que música é essa? — perguntou
Isaac, curioso.
— 4U acústica, de Blackbear.
— Hum, ér... antes de começar. Eu
queria...
Max
parou e o olho fixamente. Isaac odiava quando ele fazia aquilo, parecia que os
olhos azuis do irmão enxergavam o mais profundo de sua alma, como um espelho
dele próprio. Eles eram gêmeos e tudo mais, mas quando Max o encarava de
verdade parecia outra pessoa sem ser o irmão. Isso deixou Isaac constrangido,
ainda não era hora de falar o que sentia.
— Queria? — Max perguntou,
esperando que a frase do irmão fosse completada.
— Hã, eu queria, ér pedir ajuda em
negócio chamado não sei como lidar com garotas mas tenho que me desculpar com a
Mari e também não sei como fazer isso sem parecer desesperado demais.
— Você está desesperado?
— Estou.
— Hã, pra começar. Acho que você
ainda não percebeu, mas eu também não sei como lidar com garotas.
— Ele tá todo enrolado com um
namoro que não quer estar e tá gostando de outra. — Mark disse anotando alguma
coisa em um caderninho.
— É, dessa vez o Mark tem razão.
— Então você está mesmo gostando da
Rhay? — Isaac perguntou.
— Não saí do assunto! — ele
pigarreou — Bom, como eu estava falando, não sou bom lidando com garotas, então
não acho que posso te ajudar com a Mari. Espera aí, vocês dois estão...
— Não, não estamos juntos ou
sei lá o que passou pela sua cabeça. Só que eu fiz merda outro dia e ela parece
que ficou chateada, agora eu quero me redimir, mas o que eu vou falar? Sei que
também não é bom com garotas, mas você já namorou com uma antes, eu não. Então
talvez possa me ajudar.
— Hã... “me desculpe por ter
sido um cuzão”? — sugeriu Max.
— Não, assim não. Tudo bem,
talvez isso primeiramente. Mas eu vou ter que dizer o porquê de ter agido como
um cuzão, e isso...
— Você está com medo de levar
um fora?
— Também, não estou tão
seguro de si desde que o Kai vive na cola dela.
— Não vai me dizer que é
problema de autoestima, né? — Mark perguntou.
— Não, não é isso.
— Que bom então, se não eu
também ia começar a me preocupar, já que temos a mesma cara. — comentou Max.
— Tá, tá. Mas se vocês
fossem uma garota, vocês escolheriam quem: eu ou o Kai?
— O Kai. — Mark respondeu.
O colega de quarto de Thomas olhou pasmo para o moreno e
depois para Max, que segurou uma risada.
— EU NÃO ACREDITO, SEUS TRAÍRAS!
— Aquieta aí, ô requeijão!
Talvez ela não conheça o K-pop, e se esse for o caso, tá tudo tranquilo para
você. — disse Max
— Se ferraram então, porque
ela e a Rhay adoram uns coreaninhos. — disse Mark.
— Ah, não!
O
primeiro sinal estridente da escola tocou, anunciando que os alunos tinham uma
hora de café da manhã até o próximo sinal tocar.
— Vem, vamos descer. — Max passou
um dos braços pelos ombros do irmão e o arrastou para o refeitório, junto de
Mark que fazia sua performance de K.O pelos corredores.
Na
segunda aula, Isaac saiu da sala alegando estar passando mal, o que não era tão
mentira assim. Estava com uma tremenda falta de ar, e sentia como se a qualquer
momento ele fosse explodir. Ele foi para o pátio externo da escola, onde se sentou
em um dos banquinhos de concreto, debaixo de uma grande castanheira que fazia
sombra. Nada fazia sentindo, seus pensamentos estavam tão confusos que sua
cabeça rodava.
Após
conversar com a coordenadora e a mesma ligar para seus pais, o pai de Isaac,
Adônis, fora o buscar.
O
pai dele era um homem intimidador. Era grande e musculoso, a pele era bronzeada
e os intrigantes olhos heterocromáticos chamavam atenção. O direito era verde e
o esquerdo, azul. Os cabelos eram negros e lisos como a noite, estavam
arrumados, jogados para trás. O maxilar definido e a boca desenhada e rosada
também chamavam muita atenção no rosto do pai. Ele havia saído do trabalho, já
que usava roupas sociais. O homem sorriu levemente ao vê-lo.
— O que você tem, criança? —
perguntou ele.
— Não tenho me sentido muito bem
ultimamente. Parece que vou entrar em colapso a qualquer momento.
— Posso garantir que ele não está
bem mesmo, não veio à coordenação faz dias. — disse a coordenadora em um tom
divertido.
— E ele que costuma aparecer toda
semana aqui, não é? Deve ter algo errado mesmo. — Adônis disse brincando — Vem,
vamos para casa. Já avisou o seu irmão?
— Sim.
— Ele está bem ou está que nem
você? — O pai perguntou enquanto eles iam andando até o lado de fora da escola.
— É difícil saber como ele está, o
Max não costuma demonstrar nada. Mas não sei, ele tem estado diferente esses
dias. Eu sugiro que tente conversar um pouco, acho que é uma boa.
— Pai psicólogo em ação, aqui vou
eu.
Ambos
riram e entraram no carro.
Ao
chegar em casa, Marian, a mãe de Isaac, veio até ele toda preocupada. Foram
gastos longos minutos para tranquiliza-la dizendo que estava tudo bem, e que
era só uma exaustão, e Isaac pode finalmente ir pro seu quarto descansar, como
ele havia dito.
Mas
ao invés de descansar, Isaac foi procurar respostas, nas coisas de Max. Ele não
gostava de mexer ou xeretar as coisas do irmão — e nem de ninguém — mas o rapaz
estava extremamente curioso e procurando por respostas.
Uma coisa bonitinha
sobre Max: ele guardava cartas, fotos, desenhos, até mesmo dinheiro e um monte
de coisas aleatórias dentro de livros e mangás. O garoto logo teve uma ideia,
havia um livro preferidíssimo do gêmeo, com a capa com um desenho de dragão.
Max tinha um ciúme horrível dele, nunca o deixara muito menos tocá-lo. Era esse
que Isaac ia procurar suas respostas.
Sorte a
dele por confiar em sua intuição. Mesmo com o “cu trancado” de medo, como Mark
costumava falar, Isaac continuou. Ele sentia como se fosse pegar fogo a qualquer
momento, parecia que estava cometendo um crime grave, como roubar algo dentro
de uma igreja (ele não sabia se isso era tão grave assim, mas foi tudo o que
pensava no momento). O rapaz achou algo que não esperava, um desenho de grafite
de uma garota, era Rhay. Isaac logo sorriu, iria fazer o que podia para juntar
o irmão com a amiga. Algumas páginas depois, ele encontrou algo mais intrigante
ainda. Era uma carta, antiga por sinal. O papel já estava amarelado e
envelhecido, mas pode ver no envelope algo que fez seu coração bater mais
rápido.
Para
Isaac.
Quando
finalmente chegar a hora, e você for procurar pelas respostas no passado, eu
estarei aqui.
Com
amor, Marina.
Era uma carta da Mari, Isaac abriu
apressadamente, porém com cuidado o papel já velho e começou a ler.
Olá, Isaac.
Como você esteve?
Estive um tanto
curiosa para saber se você está se recuperando bem e rápido, mas não tive
coragem de ir te ver. Espero que não fique chateado comigo, eu estou sentindo
profundamente a mesma dor que você.
Soube que perdeu
as memórias, que não se lembra de nada do que viveu antes. Esse acidente foi
bem impactante, e doloroso. Para mim, para o Max e para os seus pais, até mesmo
para você, isso está sendo a maior dor, eu entendo. Você está sentindo na pele,
mas eu estou sentindo em meu coração.
É horrível te ver
quase todos os dias, ouvir essa sua risada escandalosa e as brincadeiras que
você prega nos outros, te ver sorridente ao lado dos amigos, e não poder estar
ao seu lado como antes, como vivíamos antes.
O “antes” está
sendo meu pesadelo ultimamente. Tem dias que eu decido deixar minhas memórias
de lado, esquecer um pouco de você, sabe? Mas tem sido tão complicado, você
está em todo lugar, me fazendo sentir um pouco ansiosa até.
Não sei quando
irá procurar e ver essa carta. Eu irei avisar o Max para te entregar na hora
certa (e não fique com raiva dele caso ele demorar, ele também precisa de um
tempo, saiba que seu irmão te ama muito), depois que você descobrir do acidente,
vai ser o momento certo para você saber que eu te amo. Eu sempre te amei, desde
quando erámos crianças. Você tem sido meu primeiro e único amor desde então. Eu
devo te agradecer imensamente por ter me proporcionado momentos e memórias
felizes na infância. Talvez não aconteça, mas eu ainda espero por você.
Feliz aniversário.
14/11/2015
Isaac
terminou de ler com os olhos já marejados e um enorme nó na garganta. Agora
sabia o porquê do olhar de tristeza que via em todos que ele convivera quando
criança. Mas finalmente, o rapaz se lembrava de tudo.
Não
aguentando ficar de pé, ele se sentou no chão entre o guarda roupa e a cama de
Max, não tardando a começar a chorar silenciosamente.
— Eu te amo também. — ele sussurrou
com a voz embargada por conta do choro.
Após
chorar por alguns minutos, Isaac lavou seu rosto e se deitou um pouco. Deveria
começar a pensar no que fazer para ter de volta os laços que tinha com as
pessoas. Começando por Mari. Toda vez que ele pensava na garota, sentia como se
seu coração estivesse em um triturador. Isaac sempre esteve afim dela, nas
últimas semanas o sentimento parecia ter ficado muito mais forte, e agora com
as memórias de volta e com a declaração da carta, tinha certeza que a amava
desde muito tempo.
Não
perdeu tempo e logo pegou o celular, procurando o contato da garota de cabelos
roxos e digitou uma mensagem.
Oi
Hm,
primeiramente, eu queria te pedir desculpas pelo meu comportamento naquele dia
na sala de música. Não estava com a cabeça muito boa. Fui um grande idiota de
ter tratado você e o Kai daquela maneira, isso não vai acontecer de novo.
Mas
eu queria conversar com você sobre umas coisas aí, será que tem como a gente se
encontrar?
Hã,
fora da escola de preferência. Se você puder.
Ele
enviou as mensagens e jogou o celular para qualquer canto de sua cama, estava
com o rosto vermelho de vergonha, iria finalmente revelar seus sentimentos.
Tratando de se acalmar, Isaac guardou o livro preferido de Max no lugar
certinho, mas não tardou a ficar com a carta para si, aquilo era um tesouro
para ele agora, assim como a foto. O rapaz desceu para conversar um pouco com
sua mãe, que logo percebeu o nervosismo.
— O que é que está acontecendo com você, meu
docinho de coco. — disse a mãe dele.
— Ah, mãe! Esses apelidos são tão...
— Tão o que?
Isaac
pensou melhor no que iria falar, além de se lembrar do que Mari havia escrito
na carta. Seus pais também haviam sofrido com o acidente, deveria começar a
rever seu comportamento com eles.
— São tão fofos que eu tenho vontade de te
guardar num potinho só pra mim. — o filho disse a abraçando por trás e dando um
beijo estalado na bochecha dela, que riu contente.
— O que você tem, ein? Está se comportando
meio estranho. Está tudo bem na escola? Nada de bullying? Brigas? — Marian
perguntou preocupada, terminando de lavar os pratos e se virando para Isaac.
— Nop, nadinha.
— Então... o que é? Eu sei que tem alguma
coisa.
— Hm, bem. Tem sim.
— Fala pra mim então, meu amor.
— É algo... não sei. Eu não estou bem para
falar disso ainda. Na verdade, eu queria falar na frente de todo mundo, com o
papai, você e o Max.
— Isaac... você tá saindo do armário, é?
— NÃO MÃE! NÃO É ISSO, SANTA MARIA DA TAPIOCA!
Marian
caiu na gargalhada.
— Desculpa, é que você fez um drama estranho,
parecia o mesmo diálogo que os filhos costumam fazer quando estão saindo do
armário. Foi mal.
Ela
riu novamente. O celular vibrou dentro do bolso da calça de Isaac, fazendo com
que um frio na barriga.
MARI: Ei
Tô afim não.
Isaac
sentiu seu coração murchar. Mas logo veio outra mensagem.
MARI:
Brincadeirinha.
Aliás, tá
desculpado, coisinha fofa. Me fala onde e quando, eu vou sim c:
O
rapaz gritou um YES alto, assustando
sua mãe. Ele se desculpou pelo susto e subiu ao seu quarto novamente, pensando
em um lugar legal.
— O parque. — estalou os dedos ao ter a ideia.
ISAAC: Eu estava
pensando naquele parque, no final da rua. Acho que é um lugar bem legal, não
sei. Mas se não quiser, a gente pode ir na sorveteria, ou em qualquer lugar que
você queira ir.
MARI: Tudo bem,
eu gosto do parque. Só é nostálgico.
ISAAC: Ás 18:00
está bom pra você?
MARI: Sim, sim.
Até lá então.
ISAAC: Até c:
O
garoto sufocou um grito de felicidade com seu travesseiro. Estava se sentindo
muito feliz e quase com missões completas. Mal podia esperar pelas seis horas.
Após pensar muito e ensaiar na frente do espelho o que iria falar, Isaac foi se
deitar um pouco, estava cansado pelos pesadelos que estava tendo ultimamente.
Mas...
ele acabou dormindo um pouquinho demais. O de olhos azuis acordou sonolento,
não sabendo nem que dia da semana era. Só se tocou que havia dormido a tarde
inteira quando olhou para a janela e percebeu que já estava escurecendo. Com
isso, Isaac se levantou em um pulo. Pegou o celular, que marcava 17:55 no
visor.
— AI MEU DEUS, EU TÔ MUITO FERRADO! — gritou
ele correndo para o banheiro, afim de tomar uma ducha breve. Enquanto tomava
banho, ele resolveu escovar os dentes para economizar tempo.
Após
terminar, foi correndo para o seu quarto, segurando uma toalha no quadril. O
rapaz teve que escolher com pressa a roupa que usaria. Optou por uma simples
camiseta cinza e calça jeans preta. O quarto ficou com cheiros misturados por
conta do desodorante que usara e com o perfume que borrifara em si mesmo, mas
ele não se importou, apenas pegou o celular, a carta e calçou os tênis, saindo
de casa apressadamente.
Chegando
perto do parque, ele percebeu uma silhueta familiar, era Mari. Isaac apressou o
passo, indo ao encontro dela.
— Ei. — ele cumprimentou um pouco sem graça.
— Ei. Nossa, como você está cheiroso. Essa arrumação
toda é pra mim, é?
Os
dois riram. Isaac levou as mãos aos cabelos, e com a textura acabou percebendo
que havia esquecido de pentear os cabelos.
— Ai, droga. — murmurou ele.
— O que foi?
— Hm, bem. Nada de mais.
— Tudo bem então. Mas... sobre o que você
queria falar?
— Ah, sim. Estava quase me esquecendo. Bom, eu
queria te pedir desculpas novamente. Sei que foi estranho e tudo mais o jeito
como falei com você e com o Kai, eu só estava um pouco estressado e estranho,
não sei.
— Está tudo bem, Isaac. Não precisa ficar com
isso na cabeça, não te culpo por isso. Na verdade, eu queria saber o porquê de
você ter ficado daquele jeito.
— É sobre isso que eu queria te falar. Eu, hã
v-vamos nos sentar nos banquinhos? Estou um pouco nervoso...
— Ah, claro.
Ambos
caminharam em silêncio até o banquinho de concreto mais próximos. Enquanto Mari
fora na frente, Isaac a ficou observando um pouco de longe. Ela estava linda,
para ele, sempre esteve. A garota de cabelos roxos usava uma blusa vermelha e
um shorts preto. As madeixas estavam soltas com leves ondulações no
comprimento. Ao perceber o afastamento, a garota olhou para trás, a procura
dele.
— O que foi?
— Eu perdi tanto tempo, quando podia ter
ficado ao seu lado por todos esses anos. — disse ele.
— Hã? — Mari perguntou, confusa.
O
rapaz foi até ela e segurou as mãos da garota. Tratou de olhar bem nos olhos
dela e não desviar.
— Olha, vai ser um pouco chocante o que eu vou
dizer agora. Então fique calma, por favor.
— Isaac, o qu—
— Eu recordei minhas memórias recentemente.
Todas elas.
Isaac
tentou ficar o mais sério que podia, mesmo que estava feliz internamente. Se
sorrisse, Mari poderia achar que ele estaria brincando com ela, e não seria
muito legal. A garota parecia ter ficado sem palavras, a boca abria e fechava
várias vezes, mas nada saía.
— Tem certeza? Você não está...
— Mari, eu nunca mentiria ou brincaria com uma
coisa dessas. Sei que você sofreu, e ainda sofre com o meu acidente de doze
anos atrás. Assim como meus pais, o Max... Estou te falando a verdade.
Recentemente, eu vi uma foto nossa de quando éramos crianças. Mesmo com as
mudanças, te reconheci na hora. Fiquei muito, mas muito confuso, você não tem
ideia. Quando procurei o meu irmão pra saber de respostas, eu acabei o
pressionando e ele me contou.
— Mas ainda assim, você só soube ou realmente
se lembra mesmo de tudo? Do que viveu?
— Tudo. Meus aniversários, as brincadeiras,
nós dois lendo livros juntos, passando o tempo juntos. Lembro até dos detalhes
do acidente.
Isaac
pode ouvir a respiração da garota ficar descompassada.
— Além disso, eu procurei por mais respostas.
Algo na minha cabeça sempre se voltava pra você, tinha algo que me dava
curiosidade e eu queria saber mais e mais. Então... eu encontrei... a carta.
O
rosto da garota ficou vermelho como um italiano embriagado.
— Olha... e-eu, mesmo que eu tenha escrito
tudo aquilo, não precisa se sentir forçado a me corresponder, ou sei lá. Não
quero que se sinta pressionado a t—
Isaac
não esperou ela terminar e selou os lábios de ambos. Esperava por aquilo por
tanto tempo que não conseguiu se conter ao saber que a garota realmente tinha
escrito, e ainda tinha os mesmos sentimentos até aquele dia. Mesmo um pouco
desnorteada, ela deixou se levar. O rapaz pôs suas mãos na cintura dela, a
puxando para mais perto. As mãos de Mari foram para o cabelo bagunçado de
Isaac, o acariciando. Ela pode sentir o garoto sorrindo enquanto se beijavam.
Mas se distanciaram e acabaram com o ósculo por conta da falta de ar.
— Nossa, isso foi... — ela começou.
— Eu sei. — Isaac disse sorrindo, não tardando
a se aproximar para dar mais alguns selinhos breves.
— O Max te mostrou a carta, então.
— Na verdadeee,
eu xeretei umas coisinha dele e achei. Mas, fica tranquila, eu já tinha
descoberto sobre o acidente.
— Hmm, se o Max souber...
— Nem tente.
Ela
riu, contente.
— Pode ficar tranquilo, não vou falar nadinha.
— Mari, eu... preciso te falar algo.
— Iiiih, o que é agora?
— Calma, não é nada demais. Eu só, ér... Bom,
para começar, eu gostava de você desde quando éramos crianças. Na verdade,
agora eu sinto algo muito mais forte.
— Caramba, eu não imaginava que você também
gostava de mim quando criança. Meu deus, como assim.
Isaac
riu, mas ainda estava nervoso, a hora de se confessar estava chegando.
— Mari, eu amo você. Com todo o meu coração.
Nem a amnésia de anos me fez te esquecer, esquecer o que eu sentia por você.
Mesmo que não seja necessário, e que talvez não seja minha culpa, mas ainda
assim... me desculpe por ter feito você sofrer tanto, por todos esses anos. E você
é maravilhosa, tem tantos caras por aí melhores e até mais bonitos que eu, mas
ainda assim preferiu me esperar. Não posso voltar atrás, mas posso prometer que
vou recompensar o tempo perdido, hã, se você me quiser, é claro.
A
garota riu, colocando as mãos na boca. Isaac podia ver o quanto ela estava
feliz, ele também estava. A iluminação era horrível, mas ele pode ver a menina
com o rosto vermelho por conta de suas palavras.
— Eu não estou acreditando no que estou
ouvindo, Isaac... eu te amo tanto, esperei tanto tempo para ouvir isso.
— Eu sei. Agora você vai ter que pregar uma
fita isolante na minha boca para que eu não fale o tempo todo, porque eu vou.
Ambos
riram novamente, contentes.
— Ah, eu esqueci de te falar. Mas... sabe que
tem ensaio hoje, né?
— Espera o que? Hoje é... HOJE É QUINTA FEIRA,
AÍ MEU DEUS! SE EU FALTAR MAIS UM ENSAIO EU TOMO NA MINHA ASS!