terça-feira, 30 de agosto de 2016

8° Capítulo - O Motivo

Kai POV’S


                 Tirando eu mesmo, quase ninguém mais me entendia. Por isso mesmo não tenho tantos amigos, apenas alguns colegas de sala e um amigo da banda. Nem meu colega de quarto, Manson, conversava mais do ‘’bom dia’’ e ‘’boa noite’’ comigo.

                  Não que eu acho isso ruim, muitas vezes as pessoas acabam me trazendo problemas para mim resolver, já não bastava os meus.

                   Eu estava treinando de manhã, já que as aulas foram suspensas por hoje, pois teria um conselho de classe ou algo assim. Aproveitei para vir a academia de boxe logo cedo. Eu havia colocado uma meta para melhorar no boxe, mais pelo dinheiro que eu queria receber depois das competições.

                   Sou um pouco ganancioso quando o assunto é dinheiro, mas tenho minhas razões.
                    Distribuía socos e golpes em meu adversário a um bom tempo, até que ele se cansou e paramos para descansar.

— Como você consegue? — ele me perguntou ofegante.
— Não sei ... apenas faço.

                    Tomei praticamente toda a água que havia em minha garrafinha, e em seguida me sentei em uma das cadeiras.

                      Fiquei olhando para os outros caras treinando enquanto eu recuperava meu folego, meu adversário tinha ido embora, provavelmente por não querer participar de mais um round comigo.

— Kai. — chamou meu treinador vindo até mim — Queria conversar com você.
                     Eita.
                     Me levantei e fiquei na frente dele, talvez não seria algo ruim, pois a expressão dele estava feliz.

— Você melhorou até de mais desde as últimas duas semanas. — disse ele me elogiando — Fiquei pensando naquilo que me disse, e realmente estou pensando em te escalar em uma das competições.
— Sério? — perguntei sorrindo.
— Sim, você realmente vai querer?
— Mas é claro! Quando começo a treinar mais sério?
— A partir de semana que vem. — disse ele anotando algo em uma folha. — Tá liberado.

                         O treinador deu um tapa em meu braço e saiu.

                         Dei um sorriso e peguei minha mochila, precisava passar em casa para tomar um banho antes de ir pro hospital.


                          No caminho, acabei criando várias expectativas do que poderia acontecer e como seria depois de eu ganhar as competições. Depois de um tempo, percebi que eu precisava ser mais seguro de si para ganhar as coisas que queria.

                          
                           Já em casa, deixei minha mochila em um canto do meu quarto e peguei roupas limpas no guarda-roupa, em seguida fui tomar um banho.

                           Eu não conseguia tirar o sorriso do meu rosto por finalmente ter conseguido entrar pra escala. Era como um sonho se realizando, e outro perto de se realizar.
                  
                           Depois do banho, me vesti e saí de casa novamente. Eu iria para o hospital, novamente, como sempre faço. Nos dias que fico hospedado na escola, saio depois do intervalo para o mesmo motivo.

                           Quando cheguei, alguns funcionários me davam um sorriso sincero e me cumprimentavam amigavelmente. Eles me conheciam já a bastante tempo.
                            Fui andando nos corredores, até parar no quarto 216, na qual havia o nome ‘’Fernanda Giornandelli’’ escrito na placa.

                            Entrei no quarto e me sentei na cadeira vazia.

                            Olhei para a mulher que dormia profundamente naquela cama de hospital. Ela estava mais pálida que o normal, e provavelmente mais magra. Tinha os cabelos com de chocolate, e assim como eu, oriental. Eu ficava feliz por herdar minha aparência de coreano dela.

                             Minha mãe. E eu tinha que a ver assim desde os meus 7 anos, ou seja, 9 anos sem ouvir a voz dela ou viver com ela. Nós sofremos um acidente de carro por causa do meu pai, que estava bêbado e fugiu depois do ocorrido.

                             Ela não acorda devido ao coma e ao transplante que precisa. Desde então, todo dinheiro que eu recebo vai para a hospedagem e outra parte eu guardo para o transplante. Esse era o motivo da minha ganancia por dinheiro.

                             E eu não me importava com o dinheiro pra falar a verdade, tudo o que eu queria era terminar com isso logo.

                             Segurei a mão dela, estava fria. Continuei olhando para seu rosto, me lembrando dos bons momentos que ela me proporcionou desde sempre quando pequeno.

                             Se meu pai fosse mais compreensivo, não bebesse, e tivesse ouvido ela, nós não estaríamos nessa situação. Desde o acidente, sinto que tenho o culpado muito, mas isso chegou a ser minha única motivação para vencer tudo e ser alguém melhor que ele.
                             Um médico entrou, me fazendo sair dos meus pensamentos.
— Aqui novamente, ein? — disse ele.
                             Ri fraco.
— Não vou deixar de vir aqui. — falei.
— E a escola?
— Não teve aula hoje.
— Ah sim. — ele começou a mexer em alguns aparelhos e eu me afastei um pouco — Ouvi dizer que entrou em uma banda, é verdade?
— Sim.
— Nunca imaginei que você ia gostar dessas coisas. — disse ele rindo.
— Pois é, nem eu.

                       Nós ficamos um tempo em silêncio.

— Você sabe que ... ela não pode ficar aqui pra sempre. — disse o médico.

                       Senti meu peito apertar, ele nunca tinha tocado nesse assunto antes.
— Mas ... eu estou pagando. — falei.
— Não é isso, Kai. Ela não vai aguentar tanto tempo nesses aparelhos.

                       A realidade veio como um tapa na minha cara.
— E ainda tem o transplante ...
— Eu ainda não consegui dinheiro suficiente.
— Sim, eu entendo. Se eu pudesse te ajudar eu te ajudaria, mas é contra as normas do hospital e eu não posso perder meu emprego.
— Eu sei, não te culpo por isso. — falei triste.

                      Ele veio até mim e tocou meu ombro. Em seguida, o médico saiu do quarto, me deixando sozinho com minha mãe.


                       Depois daquilo, não aguentei e fui de volta para o colégio. Nós combinamos de ensaiar por conta própria, para não ter toda aquela pressão que os professores nos passavam no ensaio.

                       Quando cheguei, todos já estavam lá.
— Quase achei que você não vinha mais. — disse Thomas, com um sorriso fraco pra mim.
— Desculpa, perdi a hora.
— Tudo bem.
                       Até que Thomas não chegava a ser o tipo de pessoa que eu esperava, ele é como uma caixinha de surpresas, o que me fez não o odiar. Pois era uma boa pessoa e realmente se mostrava isso.

— O que houve? — perguntou Kahal quando aproximei dele.
— Hospital.
— Ah.
                     Kahal era meu único amigo. Eu havia contado a história para ele desde que nos conhecemos na escola. Foi estranho porque foi a primeira pessoa que eu me abri para contar minha história e me apoiou totalmente.

— Ela está bem? — ele perguntou.
— Continua precisando muito do transplante. — falei.

                   Em seguida, Thomas nos guiou para dar sequência ao ensaio. Cantamos algumas músicas que tínhamos combinado de cantar, mas não pudemos tocar os instrumentos, pois a sala dos professores era perto e poderia atrapalha-los.

                   Miles e Isaac acabaram inventando alguns passos na hora também.

                   Quando estávamos quase acabando, Mark começou a fazer sua apresentação de sempre, com aquele leve funk que envolve todo mundo.

                   Depois disso, fui até o refeitório e peguei um lanche. Meu estômago continuava revirando desde a visita no hospital.

                    Continuei pensando em como conseguir mais dinheiro, acho que eu deveria entrar em um emprego fixo dessa vez até conseguir o tanto que precisava.

                     Meus pensamentos foram interrompidos por um arrastar de cadeira, e uma garota se sentando a minha frente.
                          Ela apoiou seus braços na mesa e levaram até o rosto, fazendo uma expressão fofa. Era a garota nova, não? Quase nem via ela direito.

— Oi? — falei depois de alguns segundos de estranhamento.
— Ei.
                         Ela continuou fazendo a expressão fofa. Franzi as sobrancelhas, o que ela queria comigo?
— Sou Rhay. — disse ela estendendo uma mão para mim.
                         A cumprimentei depois de alguns segundos de hesitação.
— Kai. — falei.
— Você é da banda dos meninos, né?
— Sim.
                          Rhay parecia estar esforçando para continuar um assunto. O que não me estranhou, normalmente eu teria saído quando ela fosse se sentar, mas preferi a ouvir.

— Quer alguma coisa que precise me perguntar? — perguntei.

                         Ela abriu e fechou a boca duas vezes e engoliu em seco.

— Por que você não gosta do Max? — ela perguntou.
                         Fiquei alguns segundos pensando se deveria ou não responder a pergunta.

— Isso é ... alguns problemas pessoais, talvez um dia eu te conto.
— Okay.
                       Ficamos em silêncio.

— Você já ouviu falar de K-pop? — Rhay me perguntou.
— Eu sabia.
                        Ela deu um riso fraco.
— Tudo por causa daqueles coreaninhos que dançam e cantam. — falei.
                        Dessa vez ela gargalhou.

— Eu achei que você gostasse, chegou até entrar em uma banda. — disse ela.

— Ah isso é ... por causa do dinheiro.
— Sei, mas você canta tão bem, tem certeza que não é por causa do talento?
— Quando você me ouviu cantando? — perguntei.
                          Essa pergunta a fez corar.

— Ér ... hoje à tarde. No ensaio de vocês.
— Você é uma stalker ou oque?
                      Ela gargalhou de novo.

— Eu apenas passei no corredor e ouvi.
— Aham sei.
                       Rimos.

— Hum, tô com vontade de tomar açaí. Quer vir comigo? — ela me convidou.
— Eu não vou pagar.
— Ai, tá bom. Eu pago o seu.

                     Sorri para ela. Nós nos levantamos e começamos a sair.

— Você nem me conhece direito, por que quer ir tomar açaí comigo? — perguntei.
— Não gosto de sair sozinha, me sinto uma criancinha que não tem voz pra comprar as coisas.
— Pois é, o tamanho não ajuda.

                     Depois de falar isso, ela fez uma cara para mim que me fez gargalhar alto.

                     Já na sorveteria, pude a conhecer melhor. Conversamos sobre algumas bandas e os gostos de cada um.


— Você realmente não vai me contar o porquê de não gostar do Max? — ela me perguntou levando uma colher de açaí para boca.

                    Me decidi naquele momento.


— Tudo bem, eu vou te contar.

sábado, 27 de agosto de 2016

7° Capítulo - Antes que você mude


 Thay POV’S


         Eu estava saindo do curso, quando Karl — meu melhor amigo e colega de turma — me mandou uma mensagem, perguntando se ele podia ir a minha casa para estudarmos uma das matérias.

         Estranhei um pouco, fazia tempo que não estudávamos assim. Ele é muito inteligente, nem sei porque ainda queria estudar mais em casa.

         Mas não recusei, falei que estava tudo bem e combinamos o horário.
         Passei na lanchonete e fiz um lanche demorado, não estava com pressa de ir pra casa muito menos de ver Karl.

         Não que eu o odiasse ou algo assim, muito pelo contrário. Desde que começamos a ficar próximos, tenho sentimentos por ele que estão muito longe de serem apenas para uma amizade. Só que com o tempo passando, tentei deixar de lado pois ás vezes parecia que ele não me correspondia dessa forma. Por isso tento ignora-lo o máximo possível e focar nos estudos.
         
         Depois de chegar no meu apartamento, coloquei uma roupa confortável e me sentei na cama, ligando meu computador e colocando uma série para assistir enquanto eu pensava no que iria fazer mais tarde. O fato de Karl está aqui mais tarde estava me deixando nervosa e desnorteada.

         Conversei com minhas amigas e perguntei se podia ir no dormitório para conversarmos.

         Como eu ainda tinha o cartãozinho de entrada do dormitório, pois já havia estudado lá, eu poderia entrar facilmente.

         Me arrumei um pouco e fui em direção ao colégio.
         Cheguei lá cumprimentando alguns funcionários que eu já conhecia. Em seguida, subi as escadas, indo para o quarto da Gabi e da Juh.

         Quando cheguei no dormitório delas, havia Rhay, Mily e Mari lá também, comendo brigadeiro.
— O que vocês estão fazendo? — Perguntei.
— Estávamos assistindo As Vantagens de Ser Invisível — disse Mari com chocolate na boca — Mas já acabou.
— Ata — falei me sentando — Me passa uns.
        Mily me entregou uma sacolinha de brigadeiros. Elas também poderiam ter feito o brigadeiro de colher, mas acho que ficaria um pouquinho nojento para todas nós comer de colher.

— O que vão fazer mais tarde? — Perguntei.
— Ensaio. — Respondeu Juh.
— Jogo. — Disse Mily.
— A maioria vai pro ensaio. — Disse Gabi.
— Ata, dessa vez vou ter que vir não é? — Perguntei fazendo careta.
— Sim, vão ver como está a nossa voz. — Falou Rhay.
— Ah, mas eu estou ansiosa pro ensaio. — disse Gabi sorrindo, indo pra frente do espelho.
— Você está ansiosa pra ver o Thomas, não pro ensaio. — disse Mari que jogou uma almofada em Gabi.
       Elas começaram a rir.
— Tá sabendo Thay? — perguntou Juh.
— Do que?
— A Gabi deu uns kissu no Thomas na sexta. — disse Rhay.
       Fiquei incrédula e me virei para Gabi, que ria da minha expressão.
— Faz dois dias, e você nem pra me contar. — falei.
— Eu queria fazer uma surpresa. — disse ela.
— Okay, okay. Mas como foi ?
        Assim que fiz a pergunta, as outras meninas olharam para Gabi, esperando a resposta.

— Foi bom ué.
— Quando eu der uns pega no crush vou repetir essa frase. — disse Juh guardando algumas roupas na cômoda.
       Nós rimos. Começamos a conversar sobre nossos crushes e relacionamentos, e depois falamos sobre a banda e como seria no futuro se fizéssemos sucesso.

       
       Quando olhei a hora, tive que me despedir das meninas e ir para meu apartamento, eu chegaria atrasada para estudar com Karl.

       Como passos largos e rápidos, cheguei em dez minutos. Quando estava no corredor, pude ver Karl escorado na minha porta.

       Assim que me viu, ele deu um sorriso de lado.
— Você tinha compromisso? — ele perguntou se afastando da porta, para mim abrir — Desculpa, se eu soubesse tinha deixado para outro dia.
— Não, eu só fui visitar minhas amigas e acabei perdendo a hora. — falei.

        Destranquei a porta e o convidei para entrar. Ele se sentou no sofá e colocou alguns cadernos e livros seus na mesa de centro. Fui até meu quarto e peguei meus materiais também.

        Quando voltei, fiz o mesmo que ele, me sentei e organizei meus materiais. Mas percebi pelo canto do olho que ele me encarava.

        Olhei diretamente para Karl, que não desviou. Ele estava estranho, me encarava de um jeito diferente.
— O que foi? — perguntei.
— Hã?
        Ri, ele balançou a cabeça, saindo de seus devaneios.
— Nada.
        Abrimos os cadernos e os livros e começamos a ‘’estudar’’. Uma hora em outra trocávamos olhares e desviávamos rapidamente.

— Por que quis estudar comigo? — o perguntei.
— Como assim?
— Você sempre tira notas boas, por que quis estudar assim hoje?
         Ele corou de leve, ficando sem palavras.
— Eu estava sentindo falta disso, de ... nós. — respondeu ele, ainda me encarando.
— O que?
— Hã que dizer, agora que você entrou numa banda, quase não tivemos tempo de conversar ou fazer brincadeiras.

        Continuei em silêncio, tentando entender o que ele queria.
— Eu ... fiquei me sentindo meio de lado. — disse Karl um pouco envergonhado.
        Ri em deboche, ele tinha quase 22 anos e ainda agia como um adolescente.

— Mas você tem que se acostumar com isso. — falei — Quando terminarmos a faculdade, cada um vai para um lado, não é assim?

        Eu não estava falando sério, só queria ver a reação dele.
        Karl abaixou a cabeça, com uma expressão triste e melancólica. Acabei por me sentindo mal por ter feito a brincadeira.

— Ei eu estava brincando. — falei esticando meu braço e passando minha mão pelo cabelo dele, que por segundos, se assustou com o ato. — Se você estava se sentindo de lado, era só ter me falado que eu tinha te incluído em alguma zuera.
— Não, tudo bem. — disse ele suavemente.

        Em seguida, ele começou a escrever algo em seu caderno, e eu observa cada movimento que o rapaz fazia, como se tudo que ele fizesse me chamasse atenção.

        Passamos várias horas assim, até eu me levantar e pedir algo para comer, pois já estava quase escurecendo e logo seria o ensaio.

— O que acha de uma pizza? — perguntei indo para o telefone.
— Pode ser. — disse ele largando o lápis.

         Depois de fazer o pedido, me sentei no sofá e comecei a olhar para a parede. Em algum momento, Karl parou o que estava fazendo novamente e começou a me encarar. Acabei por encará-lo também, não sabia o que fazer.

         A cada minuto que passávamos se encarando, eu queria saber o porquê daquilo e o que provavelmente aconteceria depois.

— Você realmente não percebeu, né? — perguntou Karl, quebrando o silêncio.
— Não percebi o que?
        Ele deu um suspiro e se levantou, se sentando ao meu lado e me encarando novamente com aqueles olhos castanho claros que sempre me chamavam atenção.

— Meus amigos ultimamente me pediram vários conselhos de relacionamento, e eu percebi que, eu não consigo seguir meus próprios conselhos. — disse Karl me olhando nos olhos, e por milésimos, olhava pra minha boca.

        Ergui as sobrancelhas.

— O quer dizer com isso Karl? Eu não estou te entendo. — falei.

        Ele mordeu o lábio inferior e desviou o olhar. Optei por voltar a olhar para a parede.

— Que eu gosto de você.

        Demorei alguns segundos para a frase fazer sentido na minha cabeça.

— Como?! — falei quase sorrindo.
— Não exatamente ‘’gosto’’ — ele começou a explicar corando violentamente — É algo mais forte do que gostar, mas eu não consigo encontrar a palavra certa.

        Uma gargalhada interna surgiu em mim, fazendo agora gargalhar alto. Karl agora me olhava mais envergonhado, como se ele tivesse falado algo errado.

— O que foi? — ele perguntou franzindo as sobrancelhas — Eu não estou brincando. — ele agora disse com um tom irritado.
— Desculpa. — falei me recompondo — É só que, eu não imagina que você sentisse algo a mais do que amizade por mim.
— Você vai me dar um fora?
— Você quer mesmo entrar em um relacionamento comigo?
— Não responda perguntas com outras perguntas! — protestou ele.
        Comecei a rir novamente.

— Eu quero. — disse ele olhando para o chão, com o rosto vermelho — Desde que você entrou pra mesma sala que a minha, não consegui tirar os olhos de você. Mas achei que só me via como amigo.

        O encarei em silêncio. Acabei perdendo tempo com ele enquanto achava que o mesmo não me correspondia.

— E depois que você começou a me ignorar, acabei não sabendo o que fazer. — disse Karl.
        Dei um sorriso de lado e me aproximei um pouco dele.
— Me desculpe por ter te evitado. — falei sincera — Eu só não achava que você também sentisse algo por mim.

       Ele sorriu minimamente.

       Nós encaramos por alguns segundos e eu iniciei um beijo, que logo foi correspondido. Do jeito que Karl estava se comportando, eu me sentia o homem da relação por não estar tão emocionada como ele.

       Suas mãos foram para a minha cintura, me apertando e puxando para ele. E as minhas até seus cabelos macios, o acariciando. Era tão bom e tão estranho ao mesmo tempo, pois aquele momento só acontecia nos meus pensamentos, e finalmente estava acontecendo de verdade. Com isso, acabei por beijá-lo com mais intensidade, como se cada parte de mim agora desejava por ficar naquilo por mais tempo.

       E ficaríamos, se não fosse pelo telefone tocar e nos interromper.
— A pizza deve ter chegado. — disse Karl com a voz rouca, ainda com os braços em minha cintura, me abraçando.
— Sim.

       Me levantei lentamente, não querendo me desfazer daquele momento.
       Fui até o telefone e o atendi, era realmente a pizza. Andei até meu quarto e em seguida desci para pegar a pizza.

       Depois, subi as escadas e fui até a cozinha, colocando a mesa em cima da pia. Abri a embalagem e peguei um pedaço. Logo Karl caminhou até a cozinha e fez o mesmo.

       Enquanto comíamos a pizza, conversamos sobre várias coisas aleatórias. Quando olhei para o relógio, me assustei com o horário e rapidamente fui me arrumar.

       Depois de pronta, Karl me esperava na porta, também arrumado. Tentei fazê-lo mudar de ideia para ele ficar em casa, porém ele insistiu em querer me acompanhar. Pois queria me levar a um lugar depois do ensaio.

       Caminhamos de mãos dadas e conversando euforicamente até chegar o colégio. Quando entramos na sala de música, logo começou o ensaio. Nós teríamos que cantar uma parte solo e depois com todo mundo junto.

       Me saí bem, eu espero. Uma vez ou outra, quando estava nervosa, eu olhava para Karl, que simbolizava com as mãos que eu estava indo bem, isso me deixava mais tranquila e confiante.
       Depois do ensaio, nos avisaram das coreografias, que ao contrário dos meninos, nossa banda havia ficado animada com o anúncio.
       Já quando estávamos saindo, Karl conversava animadamente com Max e Thomas. Fui até ele e abracei um dos braços dele.
       Os garotos trocaram um sorriso entre ele e se despediram de nós.

       Em seguida, fomos andando a um lugar que eu não conhecia. Karl me disse que havia achado o lugar a pouco tempo, só que não teve oportunidade para me levar lá. Brinquei com ele dizendo que agora não teria desculpas para me levar a algum lugar e o mesmo riu concordando.

       Quando chegamos ao local, não deixei de sorrir.
— Um parque de diversões? — perguntei sorrindo.
— Acho que fui clichê demais.
       Fui até ele rindo e depositei um selinho em seus lábios.
— Tudo bem, eu gostei.

       Fomos em vários brinquedos, mas o que mais nos divertimos foi no carrinho de bate-bate.
       Quando cansamos, andamos até a roda-gigante.
       Conversamos sobre vários assuntos, até que ficamos em silêncio.
— Ainda bem que eu conseguir me declarar pra você antes. — disse Karl olhando para o outro lado.
— Por que?
       Ele se virou para mim, pensativo.

— Porque você tem talento, e provavelmente vai ir muito longe com a banda.
       Continuei quieta, olhando para Karl.

— Eu me sentiria o maior perdedor se me confessasse quando você já estaria famosa. Não seria tão ... especial. Porque eu queria te provar que eu já sinto algo a mais por você antes de se tornar uma profissional.
— Você consegue me surpreender até quando não quer. — falei sorrindo pra ele, que me retribui com um sorriso mostrando os dentes.


      Nós beijamos brevemente. Eu me sentia confiante ao lado dele, ele sempre me passou essa característica. E sinceramente, eu estava mais que feliz crescendo profissionalmente com ele ao meu lado. Por um momento raro, me senti completa.