Kai POV’S
Tirando eu mesmo, quase ninguém mais me entendia. Por isso mesmo não
tenho tantos amigos, apenas alguns colegas de sala e um amigo da banda. Nem meu
colega de quarto, Manson, conversava mais do ‘’bom dia’’ e ‘’boa noite’’
comigo.
Não
que eu acho isso ruim, muitas vezes as pessoas acabam me trazendo problemas
para mim resolver, já não bastava os meus.
Eu
estava treinando de manhã, já que as aulas foram suspensas por hoje, pois teria
um conselho de classe ou algo assim. Aproveitei para vir a academia de boxe
logo cedo. Eu havia colocado uma meta para melhorar no boxe, mais pelo dinheiro
que eu queria receber depois das competições.
Sou
um pouco ganancioso quando o assunto é
dinheiro, mas tenho minhas razões.
Distribuía
socos e golpes em meu adversário a um bom tempo, até que ele se cansou e
paramos para descansar.
— Como você consegue? — ele me perguntou ofegante.
— Não sei ... apenas faço.
Tomei praticamente toda a água que
havia em minha garrafinha, e em seguida me sentei em uma das cadeiras.
Fiquei olhando para os outros caras treinando enquanto eu recuperava meu
folego, meu adversário tinha ido embora, provavelmente por não querer
participar de mais um round comigo.
— Kai. — chamou meu treinador vindo até mim — Queria
conversar com você.
Eita.
Me
levantei e fiquei na frente dele, talvez não seria algo ruim, pois a expressão
dele estava feliz.
— Você melhorou até de mais desde as últimas duas semanas. —
disse ele me elogiando — Fiquei pensando naquilo que me disse, e realmente
estou pensando em te escalar em uma das competições.
— Sério? — perguntei sorrindo.
— Sim, você realmente vai querer?
— Mas é claro! Quando começo a treinar mais sério?
— A partir de semana que vem. — disse ele anotando algo em
uma folha. — Tá liberado.
O treinador deu um tapa em meu braço e saiu.
Dei um sorriso e peguei minha mochila, precisava passar em casa para
tomar um banho antes de ir pro hospital.
No caminho, acabei criando várias expectativas do que poderia acontecer
e como seria depois de eu ganhar as competições. Depois de um tempo, percebi
que eu precisava ser mais seguro de si para ganhar as coisas que queria.
Já em casa, deixei minha mochila em um canto do meu quarto e peguei
roupas limpas no guarda-roupa, em seguida fui tomar um banho.
Eu não conseguia tirar o sorriso do meu
rosto por finalmente ter conseguido entrar pra escala. Era como um sonho se
realizando, e outro perto de se realizar.
Depois do
banho, me vesti e saí de casa novamente. Eu iria para o hospital, novamente,
como sempre faço. Nos dias que fico hospedado na escola, saio depois do
intervalo para o mesmo motivo.
Quando cheguei, alguns funcionários me davam um sorriso sincero e me
cumprimentavam amigavelmente. Eles me conheciam já a bastante tempo.
Fui andando nos corredores,
até parar no quarto 216, na qual havia o nome ‘’Fernanda Giornandelli’’ escrito
na placa.
Entrei no quarto e me sentei na cadeira vazia.
Olhei para a mulher que dormia profundamente naquela cama de hospital.
Ela estava mais pálida que o normal, e provavelmente mais magra. Tinha os
cabelos com de chocolate, e assim como eu, oriental. Eu ficava feliz por herdar
minha aparência de coreano dela.
Minha mãe. E eu tinha que a ver assim desde os meus 7 anos, ou seja, 9
anos sem ouvir a voz dela ou viver com ela. Nós sofremos um acidente de carro
por causa do meu pai, que estava bêbado e fugiu depois do ocorrido.
Ela não acorda devido ao coma e ao transplante que precisa. Desde então,
todo dinheiro que eu recebo vai para a hospedagem e outra parte eu guardo para
o transplante. Esse era o motivo da minha ganancia por dinheiro.
E eu não me importava com
o dinheiro pra falar a verdade, tudo o que eu queria era terminar com isso
logo.
Segurei a mão dela, estava fria.
Continuei olhando para seu rosto, me lembrando dos bons momentos que ela me
proporcionou desde sempre quando pequeno.
Se meu pai fosse mais compreensivo, não bebesse, e tivesse ouvido ela,
nós não estaríamos nessa situação. Desde o acidente, sinto que tenho o culpado
muito, mas isso chegou a ser minha única motivação para vencer tudo e ser
alguém melhor que ele.
Um médico entrou, me fazendo sair dos meus pensamentos.
— Aqui novamente, ein? — disse ele.
Ri fraco.
— Não vou deixar de vir aqui. — falei.
— E a escola?
— Não teve aula hoje.
— Ah sim. — ele começou a mexer em alguns aparelhos e eu me
afastei um pouco — Ouvi dizer que entrou em uma banda, é verdade?
— Sim.
— Nunca imaginei que você ia gostar dessas coisas. — disse
ele rindo.
— Pois é, nem eu.
Nós ficamos um tempo em silêncio.
— Você sabe que ... ela não pode ficar aqui pra sempre. —
disse o médico.
Senti meu peito apertar, ele nunca tinha tocado nesse assunto antes.
— Mas ... eu estou pagando. — falei.
— Não é isso, Kai. Ela não vai aguentar tanto tempo nesses
aparelhos.
A realidade veio como um tapa na minha cara.
— E ainda tem o transplante ...
— Eu ainda não consegui dinheiro suficiente.
— Sim, eu entendo. Se eu pudesse te ajudar eu te ajudaria,
mas é contra as normas do hospital e eu não posso perder meu emprego.
— Eu sei, não te culpo por isso. — falei triste.
Ele veio até mim e tocou meu ombro. Em seguida, o médico saiu do quarto,
me deixando sozinho com minha mãe.
Depois daquilo, não aguentei e fui de volta para o colégio. Nós
combinamos de ensaiar por conta própria, para não ter toda aquela pressão que
os professores nos passavam no ensaio.
Quando cheguei, todos já estavam lá.
— Quase achei que você não vinha mais. — disse Thomas, com um
sorriso fraco pra mim.
— Desculpa, perdi a hora.
— Tudo bem.
Até que Thomas não chegava a ser o tipo de pessoa que eu esperava, ele é
como uma caixinha de surpresas, o que me fez não o odiar. Pois era uma boa
pessoa e realmente se mostrava isso.
— O que houve? — perguntou Kahal quando aproximei dele.
— Hospital.
— Ah.
Kahal era meu único amigo. Eu havia contado a história para ele desde
que nos conhecemos na escola. Foi estranho porque foi a primeira pessoa que eu
me abri para contar minha história e me apoiou totalmente.
— Ela está bem? — ele perguntou.
— Continua precisando muito do transplante. — falei.
Em
seguida, Thomas nos guiou para dar sequência ao ensaio. Cantamos algumas
músicas que tínhamos combinado de cantar, mas não pudemos tocar os
instrumentos, pois a sala dos professores era perto e poderia atrapalha-los.
Miles e Isaac acabaram inventando alguns passos na hora também.
Quando estávamos quase acabando, Mark começou a fazer sua apresentação
de sempre, com aquele leve funk que envolve todo mundo.
Depois disso, fui até o refeitório e peguei um lanche. Meu estômago
continuava revirando desde a visita no hospital.
Continuei pensando em como conseguir mais dinheiro, acho que eu deveria
entrar em um emprego fixo dessa vez até conseguir o tanto que precisava.
Meus pensamentos foram interrompidos por
um arrastar de cadeira, e uma garota se sentando a minha frente.
Ela apoiou seus braços na mesa e levaram até o rosto, fazendo uma
expressão fofa. Era a garota nova, não? Quase nem via ela direito.
— Oi? — falei depois de alguns segundos de estranhamento.
— Ei.
Ela continuou fazendo a expressão fofa. Franzi as sobrancelhas, o que
ela queria comigo?
— Sou Rhay. — disse ela estendendo uma mão para mim.
A cumprimentei depois de alguns segundos de hesitação.
— Kai. — falei.
— Você é da banda dos meninos, né?
— Sim.
Rhay parecia estar esforçando para continuar um assunto. O que não me
estranhou, normalmente eu teria saído quando ela fosse se sentar, mas preferi a
ouvir.
— Quer alguma coisa que precise me perguntar? — perguntei.
Ela abriu e fechou a boca
duas vezes e engoliu em seco.
— Por que você não gosta do Max? — ela perguntou.
Fiquei alguns segundos pensando se deveria ou não responder a pergunta.
— Isso é ... alguns problemas pessoais, talvez um dia eu te
conto.
— Okay.
Ficamos em silêncio.
— Você já ouviu falar de K-pop? — Rhay me perguntou.
— Eu sabia.
Ela deu um riso fraco.
— Tudo por causa daqueles coreaninhos que dançam e cantam. —
falei.
Dessa vez ela gargalhou.
— Eu achei que você gostasse, chegou até entrar em uma banda.
— disse ela.
— Ah isso é ... por causa do dinheiro.
— Sei, mas você canta tão bem, tem certeza que não é por
causa do talento?
— Quando você me ouviu cantando? — perguntei.
Essa pergunta a fez corar.
— Ér ... hoje à tarde. No ensaio de vocês.
— Você é uma stalker ou oque?
Ela gargalhou de novo.
— Eu apenas passei no corredor e ouvi.
— Aham sei.
Rimos.
— Hum, tô com vontade de tomar açaí. Quer vir comigo? — ela
me convidou.
— Eu não vou pagar.
— Ai, tá bom. Eu pago o seu.
Sorri para ela. Nós nos levantamos e começamos a sair.
— Você nem me conhece direito, por que quer ir tomar açaí
comigo? — perguntei.
— Não gosto de sair sozinha, me sinto uma criancinha que não
tem voz pra comprar as coisas.
— Pois é, o tamanho não ajuda.
Depois de falar isso, ela fez uma cara para mim que me fez gargalhar
alto.
Já na sorveteria, pude a conhecer melhor. Conversamos sobre algumas
bandas e os gostos de cada um.
— Você realmente não vai me contar o porquê de não gostar do
Max? — ela me perguntou levando uma colher de açaí para boca.
Me decidi naquele momento.
— Tudo bem, eu vou te contar.