terça-feira, 15 de maio de 2018

11° Capítulo - A carta




Isaac


         O dia de Isaac começara com um pesadelo, sobre o acidente. Desde que descobriu o que realmente tinha acontecido, todos os dias o rapaz tinha o mesmo sonho. Isso estava o deixando louco, mas o que ele podia fazer?

         Ele se levantou ainda tremendo e suando frio, foi em direção ao banheiro para lavar o rosto. Isaac lavou sua face inúmeras vezes com a água fria que saia da torneira, mas a sensação angustiante não parava.

         Assim como os pesadelos, a cicatriz esbranquiçada de quase cinco centímetros continuava ali, no lado esquerdo de seu pescoço, queimando como inferno, o fazendo ter arrepios pensando no acidente.

         Isaac se despiu e entrou no chuveiro, tomando um banho quente para tentar se acalmar. Estava sendo difícil guardar toda aquela sensação angustiante dentro de si apenas para ele. Desde que se lembrou do acidente, as cenas e flashback’s apareciam constantemente em sua mente, o deixando desnorteado quase sempre. O de olhos azuis queria conversar com alguém sobre aquilo, queria desabafar, mas tinha medo de falar. Como no caso do irmão gêmeo, Isaac estava receoso em contar como se sentia para Max, pois sabia que o irmão sofrera e ainda sofria com o seu acidente, não queria ficar remexendo na ferida. Ele também pensava em Mari, sabia que podia confiar nela para falar, mas não sabia o que aconteceria. Será que ela ficaria triste? Chateada? Era tantos pensamentos ao mesmo tempo. Isaac precisava pedir ajuda o mais rápido possível, só não sabia para quem. Além do mais, precisava pedir desculpas à Mari. Não era da conta dele o fato de ela e Kai estarem pensando em cantar uma música juntos. Defeito de escorpiano, Isaac era ciumento e obsessivo que nem o irmão. E também, a garota nem era dele. Ele não deveria tratá-la como sua propriedade. Mesmo que aquilo fosse triste para Isaac, era a realidade. Nem sabia identificar o que sentia de verdade, era muito lerdo quando se tratava de relacionamentos.

         Isaac fechou a torneira e foi até o criado-mudo, apertou o botão do meio do celular, ligando o visor e vendo que marcava 4:45 da manhã. Ele suspirou em desaprovação, por que acordara tão cedo? Tanto tempo para dormir desperdiçado.

         O rapaz se deitou e tentou dormir novamente, o que deu certo para a surpresa dele, que pegou no sono facilmente.


         Ele acordou com o despertador tocando, com aquele som irritante e contínuo que o atormentava todas as manhãs letivas. Isaac se levantou sonolento e foi até Thomas, que não havia acordado.

— Tommy, acorda. — ele disse sacudindo o loiro de leve.
Nãooo, só mais alguns minutos. — Thomas disse sonolento enquanto tentava empurrar o colega de quarto.
— Vamos, você pode acabar se atrasando.
— Não quero.

         Isaac respirou fundo, mantendo a paciência e acabou tendo uma ideia. Ele deu um sorriso travesso por conta disso. O rapaz pegou sua garrafinha no criado-mudo e se aproximou do amigo novamente.

— Não vai levantar?
— Não. — Thomas respondeu ainda com os olhos fechados.
— Tudo bem, então.

         Isaac virou a garrafinha, despejando toda a água que havia dentro do recipiente, dando um susto em Thomas e o acordando na mesma hora.

— Como é que chamam isso? — ele disse com um tom divertido — Acho que é revanche.
— Seu... viado.

         Ele começou a rir histericamente enquanto Thomas saía da cama e ia em direção ao banheiro. Como de costume, Isaac resolver atormentar um pouco mais, saindo do quarto e indo para o do irmão gêmeo.

         Quando chegou, Max estava na ponta da cama, com um violão em seu colo. O gêmeo nem havia percebido sua presença ali. Já Mark, o colega de quarto e um dos melhores amigos dele, estava no banheiro se arrumando e cantarolando Swish Swish em um tom gravíssimo e afeminado demais para alguém que se dizia hétero.

— Ei, Max. — chamou Isaac ao entrar e se sentar ao lado do irmão.
— E aí? — o rapaz cumprimentou sem mesmo o olhar.
— O que está fazendo? Faz tanto tempo que não o vejo tocar violão.

         Max sorriu minimamente.

— Estou tentando afinar ele, quero tentar tocar algo diferente de rap.
— Ah, sim. Como o que?
— Não faço ideia, mas... algo calmo. — Max disse com uma expressão suave.
— Nossa, que brisa. — Mark comentou com a voz ecoada por ainda estar no banheiro.

         Isaac encarou o gêmeo por alguns segundos. Ele estava definitivamente diferente de uns dias para cá. Várias vezes o rapaz o pegava com aquela mesma expressão, como se algo estivesse o relaxando.

— Você está diferente. — Isaac disse.

         Max o olhou e franziu as sobrancelhas, confuso.

— Não estou não.
— Está sim.
— Você tá ficando louco, eu não mudei nada.
— Max, você é meu irmão gêmeo, eu sei quando tem algo diferente. Não tenta esconder as coisas de mim. Tu tá mó tranquilão. Me fala aí, é maconha ou tu comprou o CD da Lana Del Rey?
— OI? — Max ficou sem saber o que falar, enquanto Mark gargalhava no banheiro.
— Eu achei um orégano estranho esses dias na bolsa dele. — disse o moreno.
— Cala a boca, Mark! Seu demônio desmamado! Aquilo era um sachê de chá de camomila! — retrucou Max.
— Aaaah sim, namastê pra você também, ô drogado. Vou chamar o leãozinho do proerd e ele vai te deitar na porrada.

         Isaac gargalhou por conta da conversa super sentimental do irmão com o melhor amigo, Max os ignorou e voltou sua atenção para o violão, o afinando.

— Então... é a Rhay? — perguntou.

         O gêmeo passou os dedos rapidamente nas cordas, fazendo um som estranho.

— Bingo! — gritou Mark dentro do banheiro, seguindo de uma gargalhada alta.
— Sério mesmo?! — Isaac perguntou para o irmão, sorridente.
— Não, o Mark só tá tirando uma com a minha cara. — ele disse rapidamente e impaciente — Se eu falar que ele não tem atitude com a Juh, ele acha ruim.
— Ow. — ouvimos a voz ecoada de Mark ainda no banheiro, mas o garoto fora para porta, jogando uma meia usada em Max — É mentira isso aí que ele falou, tem nada disso não.

         Os dois riram dele. Max pegou uma folha com as cifras e começou a dedilhar.

— Que música é essa? — perguntou Isaac, curioso.
— 4U acústica, de Blackbear.
— Hum, ér... antes de começar. Eu queria...

         Max parou e o olho fixamente. Isaac odiava quando ele fazia aquilo, parecia que os olhos azuis do irmão enxergavam o mais profundo de sua alma, como um espelho dele próprio. Eles eram gêmeos e tudo mais, mas quando Max o encarava de verdade parecia outra pessoa sem ser o irmão. Isso deixou Isaac constrangido, ainda não era hora de falar o que sentia.

— Queria? — Max perguntou, esperando que a frase do irmão fosse completada.
— Hã, eu queria, ér pedir ajuda em negócio chamado não sei como lidar com garotas mas tenho que me desculpar com a Mari e também não sei como fazer isso sem parecer desesperado demais.
— Você está desesperado?
— Estou.
— Hã, pra começar. Acho que você ainda não percebeu, mas eu também não sei como lidar com garotas.
— Ele tá todo enrolado com um namoro que não quer estar e tá gostando de outra. — Mark disse anotando alguma coisa em um caderninho.
— É, dessa vez o Mark tem razão.
— Então você está mesmo gostando da Rhay? — Isaac perguntou.
— Não saí do assunto! — ele pigarreou — Bom, como eu estava falando, não sou bom lidando com garotas, então não acho que posso te ajudar com a Mari. Espera aí, vocês dois estão...
— Não, não estamos juntos ou sei lá o que passou pela sua cabeça. Só que eu fiz merda outro dia e ela parece que ficou chateada, agora eu quero me redimir, mas o que eu vou falar? Sei que também não é bom com garotas, mas você já namorou com uma antes, eu não. Então talvez possa me ajudar.
— Hã... “me desculpe por ter sido um cuzão”? — sugeriu Max.
— Não, assim não. Tudo bem, talvez isso primeiramente. Mas eu vou ter que dizer o porquê de ter agido como um cuzão, e isso...
— Você está com medo de levar um fora?
— Também, não estou tão seguro de si desde que o Kai vive na cola dela.
— Não vai me dizer que é problema de autoestima, né? — Mark perguntou.
— Não, não é isso.
— Que bom então, se não eu também ia começar a me preocupar, já que temos a mesma cara. — comentou Max.
— Tá, tá. Mas se vocês fossem uma garota, vocês escolheriam quem: eu ou o Kai?
— O Kai. — Mark respondeu.

         O colega de quarto de Thomas olhou pasmo para o moreno e depois para Max, que segurou uma risada.

— EU NÃO ACREDITO, SEUS TRAÍRAS!
— Aquieta aí, ô requeijão! Talvez ela não conheça o K-pop, e se esse for o caso, tá tudo tranquilo para você. — disse Max
— Se ferraram então, porque ela e a Rhay adoram uns coreaninhos. — disse Mark.
— Ah, não!

         O primeiro sinal estridente da escola tocou, anunciando que os alunos tinham uma hora de café da manhã até o próximo sinal tocar.

— Vem, vamos descer. — Max passou um dos braços pelos ombros do irmão e o arrastou para o refeitório, junto de Mark que fazia sua performance de K.O pelos corredores.



         Na segunda aula, Isaac saiu da sala alegando estar passando mal, o que não era tão mentira assim. Estava com uma tremenda falta de ar, e sentia como se a qualquer momento ele fosse explodir. Ele foi para o pátio externo da escola, onde se sentou em um dos banquinhos de concreto, debaixo de uma grande castanheira que fazia sombra. Nada fazia sentindo, seus pensamentos estavam tão confusos que sua cabeça rodava.

         Após conversar com a coordenadora e a mesma ligar para seus pais, o pai de Isaac, Adônis, fora o buscar.

         O pai dele era um homem intimidador. Era grande e musculoso, a pele era bronzeada e os intrigantes olhos heterocromáticos chamavam atenção. O direito era verde e o esquerdo, azul. Os cabelos eram negros e lisos como a noite, estavam arrumados, jogados para trás. O maxilar definido e a boca desenhada e rosada também chamavam muita atenção no rosto do pai. Ele havia saído do trabalho, já que usava roupas sociais. O homem sorriu levemente ao vê-lo.

— O que você tem, criança? — perguntou ele.
— Não tenho me sentido muito bem ultimamente. Parece que vou entrar em colapso a qualquer momento.
— Posso garantir que ele não está bem mesmo, não veio à coordenação faz dias. — disse a coordenadora em um tom divertido.
— E ele que costuma aparecer toda semana aqui, não é? Deve ter algo errado mesmo. — Adônis disse brincando — Vem, vamos para casa. Já avisou o seu irmão?
— Sim.
— Ele está bem ou está que nem você? — O pai perguntou enquanto eles iam andando até o lado de fora da escola.
— É difícil saber como ele está, o Max não costuma demonstrar nada. Mas não sei, ele tem estado diferente esses dias. Eu sugiro que tente conversar um pouco, acho que é uma boa.
— Pai psicólogo em ação, aqui vou eu.

         Ambos riram e entraram no carro.


         Ao chegar em casa, Marian, a mãe de Isaac, veio até ele toda preocupada. Foram gastos longos minutos para tranquiliza-la dizendo que estava tudo bem, e que era só uma exaustão, e Isaac pode finalmente ir pro seu quarto descansar, como ele havia dito.

         Mas ao invés de descansar, Isaac foi procurar respostas, nas coisas de Max. Ele não gostava de mexer ou xeretar as coisas do irmão — e nem de ninguém — mas o rapaz estava extremamente curioso e procurando por respostas.

Uma coisa bonitinha sobre Max: ele guardava cartas, fotos, desenhos, até mesmo dinheiro e um monte de coisas aleatórias dentro de livros e mangás. O garoto logo teve uma ideia, havia um livro preferidíssimo do gêmeo, com a capa com um desenho de dragão. Max tinha um ciúme horrível dele, nunca o deixara muito menos tocá-lo. Era esse que Isaac ia procurar suas respostas.

Sorte a dele por confiar em sua intuição. Mesmo com o “cu trancado” de medo, como Mark costumava falar, Isaac continuou. Ele sentia como se fosse pegar fogo a qualquer momento, parecia que estava cometendo um crime grave, como roubar algo dentro de uma igreja (ele não sabia se isso era tão grave assim, mas foi tudo o que pensava no momento). O rapaz achou algo que não esperava, um desenho de grafite de uma garota, era Rhay. Isaac logo sorriu, iria fazer o que podia para juntar o irmão com a amiga. Algumas páginas depois, ele encontrou algo mais intrigante ainda. Era uma carta, antiga por sinal. O papel já estava amarelado e envelhecido, mas pode ver no envelope algo que fez seu coração bater mais rápido.


Para Isaac.
Quando finalmente chegar a hora, e você for procurar pelas respostas no passado, eu estarei aqui.
Com amor, Marina.

Era uma carta da Mari, Isaac abriu apressadamente, porém com cuidado o papel já velho e começou a ler.


Olá, Isaac.
Como você esteve?
Estive um tanto curiosa para saber se você está se recuperando bem e rápido, mas não tive coragem de ir te ver. Espero que não fique chateado comigo, eu estou sentindo profundamente a mesma dor que você.
Soube que perdeu as memórias, que não se lembra de nada do que viveu antes. Esse acidente foi bem impactante, e doloroso. Para mim, para o Max e para os seus pais, até mesmo para você, isso está sendo a maior dor, eu entendo. Você está sentindo na pele, mas eu estou sentindo em meu coração.
É horrível te ver quase todos os dias, ouvir essa sua risada escandalosa e as brincadeiras que você prega nos outros, te ver sorridente ao lado dos amigos, e não poder estar ao seu lado como antes, como vivíamos antes.
O “antes” está sendo meu pesadelo ultimamente. Tem dias que eu decido deixar minhas memórias de lado, esquecer um pouco de você, sabe? Mas tem sido tão complicado, você está em todo lugar, me fazendo sentir um pouco ansiosa até.
Não sei quando irá procurar e ver essa carta. Eu irei avisar o Max para te entregar na hora certa (e não fique com raiva dele caso ele demorar, ele também precisa de um tempo, saiba que seu irmão te ama muito), depois que você descobrir do acidente, vai ser o momento certo para você saber que eu te amo. Eu sempre te amei, desde quando erámos crianças. Você tem sido meu primeiro e único amor desde então. Eu devo te agradecer imensamente por ter me proporcionado momentos e memórias felizes na infância. Talvez não aconteça, mas eu ainda espero por você.
Feliz aniversário.
14/11/2015

         Isaac terminou de ler com os olhos já marejados e um enorme nó na garganta. Agora sabia o porquê do olhar de tristeza que via em todos que ele convivera quando criança. Mas finalmente, o rapaz se lembrava de tudo.

         Não aguentando ficar de pé, ele se sentou no chão entre o guarda roupa e a cama de Max, não tardando a começar a chorar silenciosamente.
— Eu te amo também. — ele sussurrou com a voz embargada por conta do choro.



         Após chorar por alguns minutos, Isaac lavou seu rosto e se deitou um pouco. Deveria começar a pensar no que fazer para ter de volta os laços que tinha com as pessoas. Começando por Mari. Toda vez que ele pensava na garota, sentia como se seu coração estivesse em um triturador. Isaac sempre esteve afim dela, nas últimas semanas o sentimento parecia ter ficado muito mais forte, e agora com as memórias de volta e com a declaração da carta, tinha certeza que a amava desde muito tempo.

         Não perdeu tempo e logo pegou o celular, procurando o contato da garota de cabelos roxos e digitou uma mensagem.

Oi
Hm, primeiramente, eu queria te pedir desculpas pelo meu comportamento naquele dia na sala de música. Não estava com a cabeça muito boa. Fui um grande idiota de ter tratado você e o Kai daquela maneira, isso não vai acontecer de novo.
Mas eu queria conversar com você sobre umas coisas aí, será que tem como a gente se encontrar?
Hã, fora da escola de preferência. Se você puder.

         Ele enviou as mensagens e jogou o celular para qualquer canto de sua cama, estava com o rosto vermelho de vergonha, iria finalmente revelar seus sentimentos. Tratando de se acalmar, Isaac guardou o livro preferido de Max no lugar certinho, mas não tardou a ficar com a carta para si, aquilo era um tesouro para ele agora, assim como a foto. O rapaz desceu para conversar um pouco com sua mãe, que logo percebeu o nervosismo.

— O que é que está acontecendo com você, meu docinho de coco. — disse a mãe dele.
— Ah, mãe! Esses apelidos são tão...
— Tão o que?

         Isaac pensou melhor no que iria falar, além de se lembrar do que Mari havia escrito na carta. Seus pais também haviam sofrido com o acidente, deveria começar a rever seu comportamento com eles.

— São tão fofos que eu tenho vontade de te guardar num potinho só pra mim. — o filho disse a abraçando por trás e dando um beijo estalado na bochecha dela, que riu contente.
— O que você tem, ein? Está se comportando meio estranho. Está tudo bem na escola? Nada de bullying? Brigas? — Marian perguntou preocupada, terminando de lavar os pratos e se virando para Isaac.
— Nop, nadinha.
— Então... o que é? Eu sei que tem alguma coisa.
— Hm, bem. Tem sim.
— Fala pra mim então, meu amor.
— É algo... não sei. Eu não estou bem para falar disso ainda. Na verdade, eu queria falar na frente de todo mundo, com o papai, você e o Max.
— Isaac... você tá saindo do armário, é?
— NÃO MÃE! NÃO É ISSO, SANTA MARIA DA TAPIOCA!

         Marian caiu na gargalhada.

— Desculpa, é que você fez um drama estranho, parecia o mesmo diálogo que os filhos costumam fazer quando estão saindo do armário. Foi mal.

         Ela riu novamente. O celular vibrou dentro do bolso da calça de Isaac, fazendo com que um frio na barriga.

MARI: Ei
Tô afim não.

         Isaac sentiu seu coração murchar. Mas logo veio outra mensagem.

MARI: Brincadeirinha.
Aliás, tá desculpado, coisinha fofa. Me fala onde e quando, eu vou sim c:

         O rapaz gritou um YES alto, assustando sua mãe. Ele se desculpou pelo susto e subiu ao seu quarto novamente, pensando em um lugar legal.

— O parque. — estalou os dedos ao ter a ideia.

ISAAC: Eu estava pensando naquele parque, no final da rua. Acho que é um lugar bem legal, não sei. Mas se não quiser, a gente pode ir na sorveteria, ou em qualquer lugar que você queira ir.

MARI: Tudo bem, eu gosto do parque. Só é nostálgico.

ISAAC: Ás 18:00 está bom pra você?

MARI: Sim, sim. Até lá então.

ISAAC: Até c:

         O garoto sufocou um grito de felicidade com seu travesseiro. Estava se sentindo muito feliz e quase com missões completas. Mal podia esperar pelas seis horas. Após pensar muito e ensaiar na frente do espelho o que iria falar, Isaac foi se deitar um pouco, estava cansado pelos pesadelos que estava tendo ultimamente.

         Mas... ele acabou dormindo um pouquinho demais. O de olhos azuis acordou sonolento, não sabendo nem que dia da semana era. Só se tocou que havia dormido a tarde inteira quando olhou para a janela e percebeu que já estava escurecendo. Com isso, Isaac se levantou em um pulo. Pegou o celular, que marcava 17:55 no visor.

— AI MEU DEUS, EU TÔ MUITO FERRADO! — gritou ele correndo para o banheiro, afim de tomar uma ducha breve. Enquanto tomava banho, ele resolveu escovar os dentes para economizar tempo.

         Após terminar, foi correndo para o seu quarto, segurando uma toalha no quadril. O rapaz teve que escolher com pressa a roupa que usaria. Optou por uma simples camiseta cinza e calça jeans preta. O quarto ficou com cheiros misturados por conta do desodorante que usara e com o perfume que borrifara em si mesmo, mas ele não se importou, apenas pegou o celular, a carta e calçou os tênis, saindo de casa apressadamente.


         Chegando perto do parque, ele percebeu uma silhueta familiar, era Mari. Isaac apressou o passo, indo ao encontro dela.

— Ei. — ele cumprimentou um pouco sem graça.
— Ei. Nossa, como você está cheiroso. Essa arrumação toda é pra mim, é?

         Os dois riram. Isaac levou as mãos aos cabelos, e com a textura acabou percebendo que havia esquecido de pentear os cabelos.

— Ai, droga. — murmurou ele.
— O que foi?
— Hm, bem. Nada de mais.
— Tudo bem então. Mas... sobre o que você queria falar?
— Ah, sim. Estava quase me esquecendo. Bom, eu queria te pedir desculpas novamente. Sei que foi estranho e tudo mais o jeito como falei com você e com o Kai, eu só estava um pouco estressado e estranho, não sei.
— Está tudo bem, Isaac. Não precisa ficar com isso na cabeça, não te culpo por isso. Na verdade, eu queria saber o porquê de você ter ficado daquele jeito.
— É sobre isso que eu queria te falar. Eu, hã v-vamos nos sentar nos banquinhos? Estou um pouco nervoso...
— Ah, claro.

         Ambos caminharam em silêncio até o banquinho de concreto mais próximos. Enquanto Mari fora na frente, Isaac a ficou observando um pouco de longe. Ela estava linda, para ele, sempre esteve. A garota de cabelos roxos usava uma blusa vermelha e um shorts preto. As madeixas estavam soltas com leves ondulações no comprimento. Ao perceber o afastamento, a garota olhou para trás, a procura dele.

— O que foi?
— Eu perdi tanto tempo, quando podia ter ficado ao seu lado por todos esses anos. — disse ele.
— Hã? — Mari perguntou, confusa.

         O rapaz foi até ela e segurou as mãos da garota. Tratou de olhar bem nos olhos dela e não desviar.

— Olha, vai ser um pouco chocante o que eu vou dizer agora. Então fique calma, por favor.
— Isaac, o qu—
— Eu recordei minhas memórias recentemente. Todas elas.

         Isaac tentou ficar o mais sério que podia, mesmo que estava feliz internamente. Se sorrisse, Mari poderia achar que ele estaria brincando com ela, e não seria muito legal. A garota parecia ter ficado sem palavras, a boca abria e fechava várias vezes, mas nada saía.

— Tem certeza? Você não está...
— Mari, eu nunca mentiria ou brincaria com uma coisa dessas. Sei que você sofreu, e ainda sofre com o meu acidente de doze anos atrás. Assim como meus pais, o Max... Estou te falando a verdade. Recentemente, eu vi uma foto nossa de quando éramos crianças. Mesmo com as mudanças, te reconheci na hora. Fiquei muito, mas muito confuso, você não tem ideia. Quando procurei o meu irmão pra saber de respostas, eu acabei o pressionando e ele me contou.
— Mas ainda assim, você só soube ou realmente se lembra mesmo de tudo? Do que viveu?
— Tudo. Meus aniversários, as brincadeiras, nós dois lendo livros juntos, passando o tempo juntos. Lembro até dos detalhes do acidente.

         Isaac pode ouvir a respiração da garota ficar descompassada.

— Além disso, eu procurei por mais respostas. Algo na minha cabeça sempre se voltava pra você, tinha algo que me dava curiosidade e eu queria saber mais e mais. Então... eu encontrei... a carta.

         O rosto da garota ficou vermelho como um italiano embriagado.

— Olha... e-eu, mesmo que eu tenha escrito tudo aquilo, não precisa se sentir forçado a me corresponder, ou sei lá. Não quero que se sinta pressionado a t—

         Isaac não esperou ela terminar e selou os lábios de ambos. Esperava por aquilo por tanto tempo que não conseguiu se conter ao saber que a garota realmente tinha escrito, e ainda tinha os mesmos sentimentos até aquele dia. Mesmo um pouco desnorteada, ela deixou se levar. O rapaz pôs suas mãos na cintura dela, a puxando para mais perto. As mãos de Mari foram para o cabelo bagunçado de Isaac, o acariciando. Ela pode sentir o garoto sorrindo enquanto se beijavam. Mas se distanciaram e acabaram com o ósculo por conta da falta de ar.

— Nossa, isso foi... — ela começou.
— Eu sei. — Isaac disse sorrindo, não tardando a se aproximar para dar mais alguns selinhos breves.
— O Max te mostrou a carta, então.
— Na verdadeee, eu xeretei umas coisinha dele e achei. Mas, fica tranquila, eu já tinha descoberto sobre o acidente.
— Hmm, se o Max souber...
— Nem tente.

         Ela riu, contente.

— Pode ficar tranquilo, não vou falar nadinha.
— Mari, eu... preciso te falar algo.
— Iiiih, o que é agora?
— Calma, não é nada demais. Eu só, ér... Bom, para começar, eu gostava de você desde quando éramos crianças. Na verdade, agora eu sinto algo muito mais forte.
— Caramba, eu não imaginava que você também gostava de mim quando criança. Meu deus, como assim.

         Isaac riu, mas ainda estava nervoso, a hora de se confessar estava chegando.

— Mari, eu amo você. Com todo o meu coração. Nem a amnésia de anos me fez te esquecer, esquecer o que eu sentia por você. Mesmo que não seja necessário, e que talvez não seja minha culpa, mas ainda assim... me desculpe por ter feito você sofrer tanto, por todos esses anos. E você é maravilhosa, tem tantos caras por aí melhores e até mais bonitos que eu, mas ainda assim preferiu me esperar. Não posso voltar atrás, mas posso prometer que vou recompensar o tempo perdido, hã, se você me quiser, é claro.
         A garota riu, colocando as mãos na boca. Isaac podia ver o quanto ela estava feliz, ele também estava. A iluminação era horrível, mas ele pode ver a menina com o rosto vermelho por conta de suas palavras.

— Eu não estou acreditando no que estou ouvindo, Isaac... eu te amo tanto, esperei tanto tempo para ouvir isso.
— Eu sei. Agora você vai ter que pregar uma fita isolante na minha boca para que eu não fale o tempo todo, porque eu vou.

         Ambos riram novamente, contentes.

— Ah, eu esqueci de te falar. Mas... sabe que tem ensaio hoje, né?
— Espera o que? Hoje é... HOJE É QUINTA FEIRA, AÍ MEU DEUS! SE EU FALTAR MAIS UM ENSAIO EU TOMO NA MINHA ASS!








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